quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

LUGAR

Álvaro Roxo - Portfólio Fotográfico


Caminho, corro, tropeço, caio.
Exausta, deixo-me ficar quieta, nem procuro erguer-me. Recupero o fôlego, inspiro profundamente.
Então, dorida, tento erguer-me. Coxeio ligeiramente. Os músculos, tensos e cansados, emprestam-me  uma postura rígida e distante.
O caminho, longo, interminável, desafia-me. À minha volta, oiço sussurros desencorajadores, mordazes e irónicos. 
Lentamente, a dúvida penetra-me o coração, desmoralizando-me.... Nunca conseguirei trilhar o caminho. Nunca alcançarei o sucesso, tão desejado.
Ao longe, uma pequena luz, tremeluzente,  parece indicar-me uma direção. Fortaleço-me. Sinto o amor, a presença dos que me aparam na minha jornada, o calor do sol, a carícia da brisa, o canto do mar, as cores, sons e cheiros da vida, sempre em mudança, sempre em movimento.
Abraço o tronco, rugoso, de uma ancestral árvore. Sinto o pulsar da Terra. Recolho-me, semicerro os olhos, deixo-me embalar pelo imenso, infinito, silêncio de um Universo que se expande, sem pressa, sem ansiedade, sem revolta e sem pressão.
Percebo, agora, todas as coisas têm um sentido, um objetivo, uma razão. Não existem acasos ou coincidências, nem, tampouco, momentos de sorte ou de azar.
Tudo que existe, desde o infinitamente pequeno, ao infinitamente grande, obedece a uma lógica, a uma inteligência, a uma intenção.
Mesmo assim, sinto-me perdida, desiludida, cansada e farta.
Com esforço, dou mais um passo e outro e mais outro ainda. Subitamente, sinto que não posso parar. Caminho, quase enlouquecida. A paisagem corre vertiginosa.... Tenho pressa de chegar ao destino. Este caminho vai ter que me levar a algum lugar.
Estaco, boquiaberta. Os meus pés resvalam na última rocha, Abruptamente, terminou o caminho. Como posso agora fazer a travessia desse mar...
Por largo tempo, permaneço quieta, silenciosa, estremecendo entre um suspiro e uma lágrima. A impotência vence-me.
Sento-me na rocha dura. O frio da água, em vaivém, gela-me os ossos, paralisa-me a alma. 
Eis que sou chegada ao fim do caminho e não cheguei a lugar algum.
O surdo, agreste, cantar do mar arrepia-me, A solidão pesa-me. A incompreensão atordoa-me.
Uma luz reflete-se na água e fere-me o olhar. Fito o horizonte. 
Uma paz, leve e solta, invade-me....Uma Luz, fascinante e divina, contorna as nuvens e vem repousar no mar.
Sinto o seu calor....Sinto o seu amor....
Sei, agora, este é o Lugar...  O lugar em que devo estar, o lugar para onde caminhei, o lugar de onde vou partir, para,  mais uma vez, recomeçar.
Mas, sempre que precise, sempre que me falte o ânimo, sempre que a dor me vença, sempre que caia, ou me sinta confusa e perdida, sempre, aqui poderei voltar.
Porque aqui é o fim do Caminho, é o princípio, a origem, a chegada e a partida. Aqui há Luz, há Calor, há Amor, há Paz, há Generosidade, há Coragem, há Verdade, há Pureza e Leveza de coração ... 
Aqui pode chegar-se de rastos, mas parte-se sempre a Voar.



"Trago no olhar visões extraordinárias, de coisas que abracei de olhos fechados."
                                                                                                                          Florbela Espanca




 UBUNTU - “Eu sou porque nós somos”

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